segunda-feira, maio 27, 2002

Domingos

Hoje é domingo, ou melhor, foi domingo. O domingo desta semana não foi uma coisa emocionante, mas pelo menos também não foi a tortura que costuma ser. Mas por que os domingos são tão massantes? Tudo bem, você pode dizer: "ah, os meus são legais", tudo bem, aceite que você é uma exceção. Muitas pessoas reclamam do domingo - pelo menos eu vivo reclamando e ouvindo reclamações, mas dificilmente alguém dá uma razão mais ou menos aceitável para tal. Eu, como a maioria, também não consigo, com objetividade, falar o que faz esse dia "sagrado" (Dominicus) causar tantos tormentos.

Vamos especular.

Quais são as desculpas mais comuns? Falta de o que fazer; Programação ruim da televisão; Falta de lugares onde ir. Existem várias outras, mas estas são as mais comuns, ao menos são as que eu lembrei agora (:). Vejamos, "falta de o que fazer"; Seria essa a resposta? EU não acredito. Acho que geralmente quem diz isto se engana, ou melhor, quer se enganar. Seria mais fácil a pessoa dizer: "Falta de obrigações a fazer", aí sim, ela estaria se aproximando da realidade. Bem, o que difere os dias da semana do domingo? As obrigações sociais, sejam elas estudo, trabalho ou qualquer outro compromisso diário (ou alguns dias por semana). A maioria dos dias das pessoas é repleto dessas obrigações. "Acordar, ir trabalhar, ir para a faculdade, voltar pra casa e dormir."; "Acordar, ir para o curso, para o colégio, para o clube.". Acaba-se vivendo nas horas vagas dos nossos dias, quando encontramos um amigo e vamos almoçar juntos, ou damos uma esticadinha depois da aula pra trocar alguns minutos de conversa no bar. E mesmo quando o dia da pessoa não é tão abarrotado de obrigações esta desculpa pode ser sempre válida. Há duas possibilidades: a pessoa não usa seu tempo livre pra nada durante os dias da semana. Se esse for o caso, a pessoa sente falta mesmo é das obrigações, pois eram são as únicas coisas que ela faz durante a semana; a outra possibilidade é da pessoa ocupar seu tempo livre com algo que realmente só seja possível fazer durante a semana, como ir ao museu ou a uma biblioteca, por exemplo. E nesse caso acho que a resposta mais certa seria a terceira. Mas cá entre nós, esses casos são muito raros. A segunda resposta: "programação ruin da televisão". Bem, acho que não tem muito o que falar sobre uma resposta dessas. Se a pessoa põe a culpa da sua infelicidade na programação da televisão significa que esta tem muita importância em sua vida. E se a televisão tem tanta importância significa que ela não sente vontade de autonomia, de controlar sua vida - e seu humor - da maneira que convier. A terceira resposta, "falta de lugares onde ir", talvez possa ser aceita, mas não em todos os casos, na verdade acho que em muito poucos. Muitas vezes esse falta de onde ir quer dizer que a pessoa sente falta de um lugar para ir com os seus amigos, relaxar e se distrair, coisa que se pode fazer com facilidade no sábado. Mas vamos ver: se a pessoa realmente quer ir relaxar com os amigos, por que tem que ser em um lugar comercial? Sim, porque o que não está disponível para se ir nos domingos é normalmente o comércio. Ou então é um lugar onde as pessoas vão por alguma obrigação assumida por elas e onde coincidentemente elas acabam se encontrando todos os dias (trabalho, curso, clube, faculdade, colégio, grupo, etc) .Acho que se a pessoa dá importância às pessoas com quem ela está e não ao lugar onde ela está, a pessoa não vai se importar com o lugar onde vai se encontrar. É obvio, há os lugares de preferência, mas quando estes não estão disponíveis há motivo para simplesmente não se encontrar? Que autonomia de vida é essa? Por que não pode ser um encontro na casa de alguém? Por que não pode ser na esquina? Sentado no meio-fio não serve? /; A outra possibilidade é da pessoa realmente gostar de frequentar lugares que não são possíveis de se frequentar no domingo. Bem, esse caso é compreensível (como o da biblioteca), no entanto isso vai ser uma questão pessoal demais. Os lugares onde eu gosto de ir, por exemplo, estão disponíveis todos os dias a toda hora, e se eu não os visito é porque sou fraco e não tomo iniciativa.

Certa vez um amigo meu, em tom de humor, me falou uma coisa que me fez pensar. Ele apontou o dedo pra mim e gritou: "Ahh.. Capitalista!!!". Então ele explicou o porquê dessa ofensa. Ele disse que eu não gosto do domingo porque as pessoas nesse dia não trabalham, então ficam em casa ou saem as ruas para relaxar, fazer o que gostam: passear, brincar, namorar, jogar, etc. Segundo ele isso me deixa irritado pois eu gosto de ver as pessoas trabalhando. Bem, isso na verdade serviu mais como uma diversão, o ponto interessante foi o fato de nunca ninguém ter me dito isso e eu tampouco ter pensado nisso antes.

Uma outra maneira de ver o motivo pra essa insatisfação com o domingo é um pouco deprimente, mas se analizada bem, pode-se ver que tem muito de verdade nela. O que é então? É o seguinte: durante a semana as pessoas adotam posturas rotuladas, e no domingo essas posturas, ou máscaras, se perdem na ausência da necessidade de elas serem adotadas. Compliquei tudo! Vou tentar dar exemplos. Durante a semana nós fazemos geralmente as mesmas coisas - a grosso modo - todos os dias (são aquelas obrigações que tomamos para nós para acharmos um lugar para nós no grupo social). E acontece que quando estamos executando essas tarefas nós tomamos uma posição, uma postura; quando estamos no trabalho somos trabalhadores e agimos como tal; quando estamos no colégio ou faculdade somos estudantes e agimos como tal. Fazendo isso nós deixamos de lado nós, como indivíduos únicos, e tornamo-nos um elemento genérico. Dessa forma não precisamos pensar como nós, e sim de acordo com o "papel" que estamos representando naquele momento. Aí quando chega o fim do dia a pessoa deixa de lado tudo isso, e volta a ser ela, mas (in)felizmente já é tarde demais e precisamos dormir. Esta postura toda cai no domingo. Nós nos despimos das fantasias de carnaval e voltamos a ser nós mesmos. E pior, durante um dia inteiro. Não há cansaço como desculpa. Somos livres pra sermos nós mesmos! E aí, o que vemos? Vemos que não somos nada! Nada, absolutamente nada! Passamos tanto tempo escondidos atrás das máscaras que esquecemos quem somos - talvez nunca tenhamos sabido. Então nos tornamos uma coisa fraca, estranha, perida. Apenas sobrevivemos ao domingo. E isso pode ser ainda pior. Ao nos desvenciliarmos dos véus que nos encobrem, no domingo, damo-nos de cara com nós mesmos. Então percebemos que somos algo, mas algo feio, sem graça, longe daquilo que gostaríamos de ser, ficamos então desesperados. Procuramos nossas fantasias, mas elas não podem ser vestidas. Ficamos loucos, perdidos, agressivos, decepcionados, frustrados, deprimidos, arrependidos, chateados, enlouquecidos. E algo agrava tudo: você não é o único. Como se não bastasse estarmos nessa situação, temos que aguentar as outras pessoas, que encontram-se em igual estado. Deploráveis. Não temos paciência para conosco - ah, se pudéssemos não estar conosco o dia todo! - imagine se teríamos para com os outros. Ah, não definitivamente não. Ficamos aí ainda mais
frustrados, chateados, irritados...

Bem, como eu disse no começo, não sei porque o asco com o domingo, tentei aqui apenas dar uma especulada. Como se eu transcrevesse meus pensamentos.

E você, o que você acha do domingo?

domingo, maio 26, 2002

O Inicio

Não sei se terei saco para escrever sempre alguma coisa aqui. Não sei se vou gostar de escrever alguma coisa aqui. Não sei se vão gostar de ler alguma coisa daqui. Não sei sequer se alguém vai ler o que estará escrito aqui...

Não sei o que me deu pra criá-lo. Já fiz essa cagada uma vez no passado. O blog morreu de fome com apenas 2 postagens. Bem, não espero que esse dê certo, acho que não espero mais nada...